Modelos de projeção de demanda de transporte rodoviário: impacto e inovação


A projeção de demanda é uma ferramenta crucial no planejamento e na gestão de infraestrutura de transporte. Ela permite prever as necessidades futuras de mobilidade, possibilitando a tomada de decisões informadas e a alocação eficiente de recursos. No contexto brasileiro, especialmente nas concessões rodoviárias, os modelos de projeção desempenham um papel fundamental, influenciando diretamente as políticas públicas e os investimentos privados.

Os modelos de projeção de demanda são essenciais para uma série de atividades relacionadas ao transporte rodoviário, tais como:

  1. Planejamento de Infraestrutura: Auxiliam na identificação de necessidades de expansão, melhoria ou construção de novas vias, praças de pedágio, acessos, entre outros.
  2. Avaliação de Viabilidade Econômica: Permitem avaliar a viabilidade financeira de projetos de infraestrutura, influenciando as decisões de investimento público e privado.
  3. Gestão de Tráfego: Facilitam o dimensionamento adequado de capacidades e a implementação de medidas de controle de tráfego, visando a melhoria da segurança e fluidez viária.
  4. Planejamento Urbano e Regional: Contribuem para o desenvolvimento urbano e regional ao prever os impactos do transporte rodoviário nas áreas circunvizinhas às rodovias.
  5. Sustentabilidade: Permitem considerar variáveis ambientais e sociais na tomada de decisões, buscando minimizar os impactos negativos e promover a sustentabilidade no setor de transporte.

A estrutura de transporte é fundamental para o avanço e prosperidade econômica de uma nação, pois facilita a conexão entre diferentes regiões, permitindo o fluxo de recursos naturais, produtos manufaturados, bens de consumo e pessoas tanto dentro do território nacional quanto além-fronteiras. No Brasil, há uma considerável demanda de recursos para a infraestrutura de transporte, sobretudo para as rodovias, onde são escoadas aproximadamente 60% das cargas do país. A insuficiência de recursos públicos para a manutenção e ampliação desse sistema resultou na concessão das rodovias ao setor privado.

Recentemente, observou-se uma tendência de maior rigor na análise e na validação dos estudos de projeção de demanda, em parte devido a experiências passadas de concessões que enfrentaram desafios relacionados à subestimação ou superestimação da demanda. Um exemplo disso foram as experiências da 3ª rodada do Programa de Concessões de Rodovias Federais (PROCROFE). Segundo Stefanello (2022), as concessionárias em estudo apresentaram, em média, uma variação no volume de -17,94% em relação ao que foi projetado nos estudos de tráfego. Se as seis rodovias concedidas nessa etapa apresentassem o volume estimado nos estudos de tráfego, elas teriam uma receita adicional de R$ 2,86 bilhões ao que foi contabilizado entre 2014 e 2021. Assim, apresentando volumes de tráfego abaixo das expectativas, fez com que 5 das 6 concessões entrassem com processo de devolução ao poder concedente.

Diante desse cenário, somado à instabilidade econômica da última década e à pandemia de Covid 19, tanto as instituições reguladoras quanto as empresas de concessão têm se mostrado mais criteriosos na avaliação dos estudos de viabilidade, exigindo metodologias robustas e transparentes.

O Capítulo 8 do Manual de Estudos de Tráfego (DNIT, 2006) não estabelece uma única metodologia para prever a demanda, mas oferece diversas abordagens e recomenda a adoção de modelos mais abrangentes, que considerem múltiplas variáveis socioeconômicas. Apesar dessa flexibilidade, o uso do Produto Interno Bruto como único indicador da demanda rodoviária tem sido predominante, principalmente devido à disponibilidade de séries históricas confiáveis para análises de correlação e projeções oficiais dessa variável.

No entanto, além de fatores como os períodos de safra em regiões agrícolas como o centro-oeste, existem outras variáveis que podem influenciar diretamente a demanda rodoviária. Já é evidente em alguns momentos, tanto em escala nacional quanto regional, uma desconexão entre a variável PIB e o tráfego, motivada por diversos fatores. Um exemplo disso foi observado durante a pandemia de Covid-19, em que algumas concessionárias registraram uma demanda estável ou até mesmo crescente de veículos pesados, apesar do contexto econômico adverso.

Além disso, fatores como a taxa de motorização, mudanças na dinâmica da mobilidade de pessoas e bens, e processos logísticos também desempenham papéis significativos na demanda rodoviária. Isso indica que a economia não deve ser o único fator determinante do tráfego.

Nesse contexto, a SYSTRA tem se destacado pela sua abordagem inovadora na elaboração de modelos de projeção de demanda. Nossa equipe de consultoria tem dedicado esforços significativos na pesquisa e no desenvolvimento de novas metodologias, considerando uma ampla gama de variáveis socioeconômicas e contextuais, de acordo com as características específicas de cada rodovia em estudo.

Ainda em um contexto de regionalização, são ponderados os cenários de avanço em infraestrutura da região como, por exemplo, previsão de migração modal com o avanço da malha ferroviária e novos terminais logísticos de integração.

Uma das principais estratégias adotadas pela SYSTRA é a utilização da análise estatística avançada, fazendo uso intensivo da biblioteca Statsmodels da linguagem de programação Python. Essa abordagemtorna possível analisar diversas variáveis preditivas e elencar aquelas que mais se adequam às circunstâncias da regressão para a estimativa da demanda futura. Essa abordagem permite uma modelagem mais rápida, precisa e flexível, além de facilitar a integração com outras ferramentas e sistemas de informação geográfica (SIG).

No que diz respeito às análises de rodovias que incluem travessias urbanas ou vias de contorno, também houve uma evolução metodológica. Esses trechos desempenham um papel crucial não apenas como conexões logísticas entre diferentes regiões, mas também na mobilidade dentro dos municípios. Um dos desafios mais recentes que enfrentamos é a avaliação das incertezas que afetam os deslocamentos, tais como mudanças na demografia e no uso do solo, como a redução da população ou o aumento da densidade urbana, bem como mudanças nos padrões de consumo, como o crescimento do comércio eletrônico. Esses fatores não só podem influenciar o volume de viagens, mas também a escolha dos modos de transporte na região.

Outro progresso consiste na incorporação de dados de telefonia em nossos estudos de demanda, uma prática que se tornou rotineira em nossas análises. Além disso, a SYSTRA tem buscado inspiração na literatura e nas práticas de outros países, adaptando e aprimorando metodologias internacionalmente reconhecidas para a realidade brasileira. Isso inclui a consideração de aspectos culturais, econômicos e regulatórios específicos da região estudada, garantindo a relevância e a eficácia dos modelos desenvolvidos.

Um dos pontos fortes da abordagem da SYSTRA é a capacidade de oferecer aos clientes uma variedade de cenários de demanda, que vão desde os mais otimistas até os mais conservadores. Isso permite uma análise mais abrangente dos riscos e oportunidades associados aos projetos de infraestrutura rodoviária, capacitando os tomadores de decisão a fazer escolhas mais informadas e resilientes.

É importante ressaltar que todos os modelos desenvolvidos pela SYSTRA são elaborados em conformidade com as diretrizes das instituições responsáveis pela validação dos estudos, garantindo a sua qualidade e confiabilidade.

Os modelos de projeção de demanda de transporte rodoviário desempenham um papel fundamental no planejamento, na gestão e na tomada de decisões relacionadas à infraestrutura viária. No contexto das concessões de rodovias no Brasil, esses modelos têm impacto direto nas políticas públicas e nos investimentos privados, influenciando a viabilidade econômica e a sustentabilidade dos projetos.

A SYSTRA destaca-se pela sua abordagem inovadora na elaboração de modelos de projeção de demanda, considerando uma ampla gama de variáveis e oferecendo cenários diversificados aos clientes. Combinando análises estatísticas avançadas, consulta à literatura internacional e aderência às diretrizes regulatórias, a SYSTRA tem contribuído significativamente para o avanço do setor de transporte rodoviário no Brasil, promovendo o desenvolvimento sustentável e a eficiência na gestão de infraestrutura.

Créditos de imagem: Getty Images; Frédéric Bukaljo/CAPA Pictures

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